segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

-Flor, fecha a água!

Frank Herfort

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Nesse dia poderia estar encharcado de nuvens ou a derreter em calor que nem o vento mais rabugento o sacudia. Nada o moveria do porto de embarque. Foi ali que marcou encontro com Flor, mulher exigente de sol e apreciadora de luas. A qualquer momento poderia fechar as suas pétalas e deixar-se ficar na viagem mais curta. As horas passavam e ele ajeitava, repetidas vezes, a leve mochila que deslizava ombro abaixo sem pressa de partir. O barco que os esperava era grandioso, não chegando aos grandes pés do mar, mas bastaria para enaltecer a bravura das especiais diferenças. Ele tem ar de amarras, mas estava prestes a largar o porto por alguns dias… Flor surge vestida em tons de gaivota, mas presa pelas asas da bagagem. Ele caminha em sua direcção e, sem qualquer saudação, pergunta:

-Queres que te ajude?

-Espero não ter que ouvir perguntas dessas na viagem e desejo o maior número de vagas para abstracção.

-Flor, embora saiba que o embarque será igual ao desembarque, tenho de te dizer que perdi o guião das vagas.

Entraram no barco que os arrastaria por oito dias numa trama que nem o mar os viu.

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Atento


Área de trabalho desinfectada

Vídeo com outros trabalhos de Rebecca Horne

domingo, 7 de Fevereiro de 2010

A gorda despesa pública

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Era bom que a temática política fluísse, sem o recorrente recurso cinéfilo em que se têm envolvido as personagens. A fraca actuação levou jornalistas a indignarem-se com a prestação dos monólogos que nascem para criar fumo. Agarradas as fulminantes formas de interpretar a lei, o trato pode ser o indicador para acusar, com palavras arejadas, ou o polegar a dar boas vindas.

Espera-se que a rodagem das próximas cem cenas melhorem o desarranjo nos paços dos conselhos. Com um pouco de sorte talvez se venham a verificar transferências de competências para o interior do país.

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Atento

Uma questão de tempo

Klaas Van der Linden

sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Pugnar espelhos

Steve McGhee

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Muito antes de darem o alarme, Tom já estava na casa das máquinas, reunido com três oficiais, a avaliar os estragos. O cruzeiro já vinha em dificuldades há algum tempo. Enquanto a avaria não fosse reparada, os tripulantes armavam embustes aos passageiros, alheando-os numa ocupação no interior. As saídas para o exterior ainda não estavam interditas, mas a vigilância era apertada. A bordo, inventava-se uma campanha com cataratas no Douro. No entanto, o ensaio em desviar atenções estava a ser um fracasso.

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Atento

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

A lista das Ementas

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Ainda não eram horas para o almoço, já Johnson andava de volta da sua agenda na secretária a estudar a lista das ementas fixas dos vários restaurantes que frequenta. Os pratos riscados eram os restaurantes que tinham fechado e, volta e meia, fazia o reconhecimento para ver se havia novidades gastronómicas. O gosto apurado por comida tornava-o uma excepção, pois conseguia distinguir os estados de espírito que se faziam para lá dos cozinhados. Ementa mais salgada, a cozinheira Y estaria no período de ovulação. No caso de ser cozinheiro, era pura distracção. Em ambos os géneros, sal a menos era uma longa habilidade culinária, que facilitava a digestão. Johnson não tinha dificuldade em apurar as suas escolhas e antes de sair de qualquer restaurante, dava a melhor gorjeta, apenas felicitando as cozinheiras. Frequentemente os colegas, no trabalho, solicitam-no pedindo palpites, para se livrarem das tardes sequiosas, nadando em garrafas de água, mas nada podia fazer. Enganaram-se outra vez na ementa. Johnson é corpulento e enfastia conversas à refeição, pois não gosta da comida fria. É bom companheiro, mas durante a semana aproveita a pausa do almoço para alargar a gravata e saborear a envolvência esfomeada que aguarda pela refeição. Hoje fez uma descoberta simpática quando viu reaberta uma das ementas riscadas, com nova gerência. O aspecto da sala pouco tinha mudado. Os lugares sobravam. Sentou-se no sítio do costume. Pediu sugestão ao novo empregado e tomou nota da ementa fixa da semana. Enquanto aguardava, veio à mesa a suposta gerente. Teve uma curta conversa com a D. Pepita, que se fixou em Portugal num ano de excelente colheita vinícola, favorecendo o palato às iguarias. Johnson conta-lhe as fascinantes garfadas que anteriormente enchiam aquelas mesas. Passou a visitar o local por simpatia e afeição ao sal que pulverizava o ar com a passagem de D. Pepita. Ela estava aflita em dívidas e a sobreviver das tapas que servia aos sequiosos que se enfileiravam à tarde no balcão. Um desses dias, deixou-se encantar pela única companhia, a das moscas que caíam nos pratos das mesas, mortinhas de fome. Abriu mentalmente uma nova ementa e começou a sonhar. Decidiu afastar as mesas e ampliar o sonho das conversas que assistia ao balcão, fechando o espaço como restaurante e tentando licenciá-lo para satisfazer um desejo corporal após a morte dos interessados. Queria proporcionar um velório mais espirituoso aos amigos vivos e partilhá-lo por mais umas horas em júbilo. O pedido seria descrito pelo próprio e entregue dentro de um envelope, já lacado, a D. Pepita, salvaguardado por um duplicado dado a familiares ou a quem delegou abri-lo após a sua morte. D. Pepita, assim que viu entrar Johnson, correu para ele e pediu que a ajudasse a elaborar o sonho, que descreveu com uma minúcia assombrosa. Johnson sentou-se abismado com o sonho que ela lhe contava, bebendo grandes goladas de whisky. Tentou acalmá-la: - Pepita, estamos a chegar ao carnaval, pode ser uma brincadeira engraçada, mas quem é que vai fazer de morto?

- Embebedo o Zé Botelho, que falou aí ao balcão da festa que gostava de dar depois de morto, e ajudo-o a deitar-se no caixão. Com o patrocínio da funerária do fundo da rua, o caixão é fácil de arranjar … tu tratas de divulgar a festa. Não te esqueças, quero fotógrafos.

-Pepita, tu achas que consegues pôr o Zé Botelho quieto no caixão?

-Embebo um tufo de algodão na bebida que ele gosta para lhe manter a boca fechada… ponho um DJ a tocar música e um cartaz lá fora, AQUI NIGUÉM MORRE! Que tal?

-Toma lá este dinheiro para compores o stock das bebidas, mas depois do carnaval vais ter que mudar o cartaz lá de fora… TRESPASSA-SE.

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Atento

Saco antioxidante

Amplo e ajustável a todas as ocasiões.

Tem outras cores aqui

Ouves o piar? Lá vão elas…

Tessa Posthuma de Boer

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Aos poucos, estão elas a chegar. Dizem ser migratórias, mas não precisam que chegue a primavera para se libertarem. Os finórios pardais vivem das esmolas, encostados à chaminé, observando do quente ninho, sem piar. Escondidos, os milhafres patrulham de binóculos a passagem do pombal. A informação encontra-se a favor das migratórias que atravessam a globalização. Disparos de pólvora seca desorientam a fraca navegação. O primeiro voo foi um rigoroso ensaio, feito sem licença, mas adormece novamente nas asas dos abutres. Limpos os céus pelos radares, incham os papos, todos comidos. Longe das redes finas, armam-se no ar as teias que viciam as regras. Bem orientadas, lá vão elas, as migratórias, a voar ainda mais alto para se livrarem do fogo de artifício.

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Atento


sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Redes sociais e os vazios

Camille Allen

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Ando por aqui nas redes sociais (Blogs) há algum tempo, não o suficiente para afirmar com a veemência despropositada do post anterior. É muito bom constatar tanta dedicação e empenho em alguns que visito, outros nem tanto, mas percorro-os para poder sentir a sua evolução. Sem desprestigiar outros conceitos que complementam uma rede social, vi os “velhos” Chats a adormecerem ao gracioso nascimento do Facebook e do Twitter, que conheço genericamente. Eles vieram ajudar a melhorar o conteúdo dos Blogs, onde não partilho virtualmente o que é pessoal ou reservado.

Afinal estão em todo o lado, estudam todas as matérias alheias e, no fim, lamentam falta de tempo para fazer uma mão de putos. Apesar desta notícia, relaxe, mas não muito e vá tentando. Em caso de dificuldade, fale com o seu médico :).

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Atento

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Comunicar não é uma arte, é um direito

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A pretensão de alcançar a arte de representar é o forro mais natural da sociedade. Não sendo alfaiate, observo o desassossego das sedas a escorregarem ao avesso da hermética que desejam. Soltem os que escondem ou andaram uma vida à procura da murada do vazio. É possível aperfeiçoar assombrosos vazios, e eles estão aí, descritos e entrelaçados nas redes sociais, enchendo o peito na cruz da curiosidade.

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Atento

A concertina dos tiranos

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Abrem e fecham a agenda em fole, refeita escrupulosamente. Ao ouvir as notas da concertina, cantam o sol-e-dó que se esconde no único instrumento. Caíram na preguiça e fizeram um dueto.

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Atento

Kai-uwe schulte-bunert

quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

O

O O O O O O O O O

Suavidade

Jean-Léon Gérôme

Mergulho

Erin Tyner

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Era nadar e abraçá-lo a cada braçada, sustendo a respiração para não enregelar nas pontas do mar. Invadiu-o sem guelra guerreira e bateu pernas às vagas maneiras. Enrolado nas ondas do mar, lutou até onde se lembrou, sorvendo, num instante, todo o mar em goladas. Adormeceu embriagado em terra.

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Atento