Sábado, 4 de Julho de 2009

Sorry

Francesco

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Quando batem os sinos

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Ateu vive a dois passos da igreja e, com o passar dos anos, habituou o ouvido ao bater dos sinos que lhe estremecem a casa toda. Durante a semana, não passa das oito badaladas que o levantam da cama, regressando a casa pela hora mais solitária da escuridão que se vai juntando a outras noite fora. Trabalha numa companhia de seguros onde estabiliza os gastos que tem com o vício do jogo, mas não há sábado que passe sem se cruzar nas imediações da igreja com a beatitude piedosa da viúva D. Estefânia que perdeu o marido já há algum tempo. Ateu conheceu-a na companhia de seguros quando a esplendorosa mulher o abordou para tratar de todas as regalias que tem um seguro de vida. Desde esse dia, Ateu tem-se esmerado em complicar todo o processo, atentando a debilitada senhora na viuvez, guardando os resultados da peritagem na gaveta. Não estaria em causa o pouco dinheiro a receber, mas sim conquistar tal coração que vai partilhando entre o adro da igreja e a companhia de seguros. O tempo foi passando e D. Estefânia já não lacrimeja por detrás dos óculos escuros e trava-lhe o olhar ao contorno cinquentão num esfumado vestido em cores quentes, só para o atormentar. Ele está prestes a mudar a sua profana vida, também de Ateu, só para conquistar tal mulher. Para alargar o seu espectro com religiosidade, naquele sábado aprumou-se todo e entrou na igreja já a missa ia nas alturas. Facilmente detectou a sua paixão e sentou-se ao seu lado com um ar de santinho. Ela, quando o viu, conteve como pôde a gargalhada que se escondia à frente das pessoas que olharam para trás. Ele, num gesto para sossegar o seu espírito, poisou a sua mão sobre a dela e sussurrou-lhe: -Não te rias, que o caso é sério.

-Porque vieste? pergunta Estefânia.

-Venho fazer-te um novo seguro.

-Aqui? diz espantada Estefânia.

-Não, mas no fim da missa podemos falar com o padre para confirmar a data. Insiste Ateu.

-Para quê? pergunta Estefânia mais atónita que nossa senhora.

-Para casarem os nossos sentimentos.

-Tu não digas mais nada, depois falamos.

Assim que a missa terminou, Estefânia saiu da igreja com Ateu agarrando-o pela mão pronta a contrariar o feito da missa e zancar-lhe uma tareia. Caminhavam em direcção a casa dele quando é surpreendido por ela que lhe pede uma explicação das suas intenções e ele esclareceu-a sem qualquer hesitação.

-Estefânia, se não houvesse amor no ar, não terias permitido que eu deixasse na gaveta tanto tempo o que, por direito, tens a receber. Também não prescindiste de todos os últimos sábados namoriscares, depois da missa, grandes pecados muito bem ocultados nas entrelinhas da apólice…

Estefânia interrompe-o tapando-lhe, por momentos, a boca com uma mão e pede-lhe que recomece a explicação dentro da casa que estremece quando batem os sinos.

No fim da calorosa noite, Estefânia pergunta-lhe se pretende converter-se à religião católica e ele respondeu: - Que Deus te ilumine, que eu estou apagadito.

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Atento

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Petiscos

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Nos tanques dos crustáceos restam lavagantes e sapateiras que mudam de carapaça para crescer. Têm vindo a ficar pequenos demais para tantos animais que se amontoam ao apetite na mesa dos negócios. Silenciadas as tachadas vindas da cozinha, renasce um corredor que se atravessa no salão, ficando no ar um cheiro a final de crise. Os lavagantes, barbados e de olhos já pendentes do grande escaldão, preparam-se, previamente, com a estrutura devidamente estalada, para que não se recorra às incessantes batidinhas que os calam. É importante que lavagantes e assessoras sapateiras não se desmanchem ou suscitem desmembramento de outra espécie. Fica a cargo dos comedores constituintes cerca de 20% do recheio ainda por arrematar. O travessão, no meio da mesa, enfeitado de camarão, provoca trocos avolumados.

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Atento

Novas capacidades

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As portas do Teatro Contapassi ainda não tinham aberto, mas já andava o assessor financeiro a encenar o resultado do novo projecto digital para melhorar os passos em palco. Todos sabiam que a adaptação traria dissabores aos actores, mas nada seria possível sem a aprovação do director Janota e de todos os associados, no dia 8 de Julho.

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Atento

Domingo, 28 de Junho de 2009

Mamíferos

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Fiquei a saber com satisfação que foi encontrado um grupo de responsáveis pelo aumento da poluição. O estudo revela que as vacas arrotam metano, mas não ficam sozinhas no julgamento, fazendo-se acompanhar por caprinos e tantos outros camelos.

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As mamas estão cá, mas o sistema europeu, para economizar energias no transporte do produto leiteiro, permite mugir as vacas mais longínquas para alimentar outros mamíferos.

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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

La Dia Spagnola

Jasmim e Rosie

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Sentado na ponta do bar, Jasmim, proprietário e viajante nos destinos mais internos dos seres, vai revelando esconderijos em lugares remotos da mentalidade. Os sentimentos, para ele, não têm planta de uma arquitectura habitável, com divisões tecnicamente terminadas. Contraria a intuição comodista dos que se expandem em seu redor, criando maior amplitude do que é imperceptível. Rosie é a mulher com quem vive há mais de vinte anos uma relação de amizade tão profunda que Jasmim sente como se tivesse uma irmã. Na multidão salientavam-se os graciosos que apalhaçavam a festarola aos olhares entorpecidos com receio de perder a reserva de admissão sem pouparem Jasmim com a graçola da “irmã”. – Então, dizem que vais montar uma cestaria?

-Vou, e acredito que te ponha à porta a cortar os cotos das cadeiras, não vá faltar verga aos pendericalhos. Foi o suficiente para sanar o equívoco do incesto. Jasmim e Rosie complementavam-se para lá do palpável. Ela, de pé, com outros amigos sentados, planava conversas graças à baixa altura. O bar estava cheio de corpos bebedores de sumos descascados até ao caroço. Poderá ser uma apetência natural que todos temos, mas ainda não foi esporeada a fantasia para a podermos compreender. Algumas guerras puderam ser evitadas por parte de quem tem a erudição de a difundir. Jasmim limita-se a captar os sinais que perderam o sentido do que ainda é racionável. Uma verdadeira tentativa em deslocar os sinais de coerência para o papel sem os partir muito. É um homem que não se interessa por deter julgamentos. Deixa que o tempo se encarregue de assegurar aos mais cépticos que a forma mais saudável de oxigenar a imensidão dos faustos é dando-lhes o trabalho de aprender a mexer no corpo alheio sem lhe tocar e, em partilhas diversas, se facilitam segredos que o deixam de ser. Mas a noite pedia remanso, cavaqueiras leves, enquanto no centro do bar soava a voz do Rafael, um amigo de infância que teria dado mais de duas voltas por todos os lugares da terra, mas ainda não se teria livrado da presunção que o perseguia, serpenteando todo o seu saber. Nem todos os aspectos e atributos teriam algum interesse para desmistificar a essência humana, mas faziam parte da complexa demonstração do que na verdade somos. Nessa noite, Rosie estava mais irrequieta que uma abelha, e quis voar na companhia do Jasmim por outras ruas. Jasmim deixou o bar e caminhou ao longo da correnteza de casas, escutando os defensores dos velhos luxos, pondo à prova as condições inexistentes do saneamento do passado, para justificar o perdulário das atitudes com verdadeiros presentes patrocinados pelo estado. Num instante, sem qualquer tipo de vento, soou o fechar de persiana de algum mal disposto(a), desfazendo a conversa incomodativa que ambos faziam em paragens debaixo das janelas, completando num ápice o final da rua já gasta de tanto rodado. Jasmim acredita que possam haver profissões para todos os gostos, mas persiste a dúvida, sobre as que, de facto, devem ser patrocinadas pelo estado.

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Atento

Estrutura literária

David Blasquez

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A prateleira deve cumprir os requisitos da expurgação para se manter saudável. Umas suportam um todo, outras desfolham calmamente a vida. O invólucro ainda faz parte de uma camada que vive do aspecto. As mais recatadas limpam o pó às lembranças e regam plantas, saboreando o calor emanado da prateleira das leituras.

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Atento

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Em viagem

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Em vésperas de ir para a quinta, Jôjô faz a mala e tira do chaveiro a chave universal, com uma só fileira dentada, para poder usufruir de três meses de calmaria no meio da cerrada vegetação. O dia tinha sido desgastante, mas ainda não terminara. Conseguiu apenas descontrair na viagem silenciosa de TGV, na companhia da bela Aninhas que fazia figurinhas de papel. Únicos na carruagem, alinhavam a morna cavaqueira, vendo a fugitiva paisagem da janela do comboio. Ele, com resmas de papel para contar, afastava-se, contando mais exemplos, estruturando o grande esforço da máquina que se afastava a grande velocidade. Aninhas, mulher recatada, manteve a distância sem estragar o timbre da sua voz. Jôjô, ao longo da viagem, foi-se adaptando ao coração tácito da única companheira, conseguindo surpreendê-la quando abriu a sua mala das promessas. Retirou o seu bloco das abdicações culturais e tomou novas notas. Na planície, nada morreria, graças ao seu esforço, controlando a despesa no bar, na linha até Badajoz. A viagem esfumava-se velozmente aos olhos da Aninhas que ficou tocada pelas suas novas proezas nos ramais com frutos a vingar, só lá para final do verão.

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Atento

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Sugestão

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Chá de rosas

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Poderia começar por explicar a importância do trem da cozinha ser anti-aderente, mas vá mexendo para não pegar.

Depois dos esperados resultados eleitorais, sugiro uma infusão de pétalas de rosas, ricas em vitamina C. Alivia dores de garganta e problemas alérgicos próprios desta época…

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Atento

Domingo, 7 de Junho de 2009

-E este?


Hoje, quando entrei na sala do edifício, estava um burburinho instalado com uma senhora que entendeu que era ali o seu local de voto. Fazia-se acompanhar por outra senhora que aparentava ter umas 80 primaveras, e essa sim, estava no local certo, mas com muito pouca visão, lá ia ela de boletim de voto na mão para fora do edifício, tendo sido chamada à atenção por um membro da mesa, pois não se tratava de um bilhete de viagem. Eu, depois de votar, encontrei-a fora da porta da entrada. A senhora pede-me ajuda para ler o boletim de voto, este ampliado e colado na porta. A cabeça da senhora estava a meio palmo do “cartaz” e, de dedo na folha, indicava-me a leitura, de cima para baixo, e eu ia respondendo consoante o seu pedido. Limitei-me, apenas a responder, parecendo estarmos a conferir uma factura. Quando ouviu o nome do Partido Socialista parou de me perguntar. Agradeceu-me e lá foi a senhora votar.

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Atento

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Paragem

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Na verdade tenho novos argumentos lúdicos para ceder ao delírio, mas neste belíssimo momento tive a oportunidade, em “laboratório”, de testar novos reagentes. O resultado foi surpreendente, tendo que elaborar toda a matéria já conseguida e afastá-la de outro tipo de bactérias. Não é assunto para postagem, embora possa vir a ter interesse como curiosidade à mestria da sociologia.

Aproveitem e resfolguem na EyeStop paragem com uma panóplia de funções. Pode navegar na internet sem se preocupar com o número de passageiros que por ali passam, podendo controlar a sua produção de poluentes, etc.

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Atento

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Voto de amor

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No próximo fim-de-semana vote, mas vote com amor. Eu sei que o desenho não é fácil, mas lá no fundo há sempre um que você ama e não o diz. Até sexta-feira, grite bem alto, e depois, guarde segredo e surpreenda, votando para dar ânimo à jovem Europa. Ela tem sido pouco discreta porque tem um longo e grande amor para lhe oferecer. No domingo, vá lá, aceite os defeitos e sussurre a quem ama e dê esperança à jovem Europa.

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Atento

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Imagens