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Ainda não eram horas para o almoço, já Johnson andava de volta da sua agenda na secretária a estudar a lista das ementas fixas dos vários restaurantes que frequenta. Os pratos riscados eram os restaurantes que tinham fechado e, volta e meia, fazia o reconhecimento para ver se havia novidades gastronómicas. O gosto apurado por comida tornava-o uma excepção, pois conseguia distinguir os estados de espírito que se faziam para lá dos cozinhados. Ementa mais salgada, a cozinheira Y estaria no período de ovulação. No caso de ser cozinheiro, era pura distracção. Em ambos os géneros, sal a menos era uma longa habilidade culinária, que facilitava a digestão. Johnson não tinha dificuldade em apurar as suas escolhas e antes de sair de qualquer restaurante, dava a melhor gorjeta, apenas felicitando as cozinheiras. Frequentemente os colegas, no trabalho, solicitam-no pedindo palpites, para se livrarem das tardes sequiosas, nadando em garrafas de água, mas nada podia fazer. Enganaram-se outra vez na ementa. Johnson é corpulento e enfastia conversas à refeição, pois não gosta da comida fria. É bom companheiro, mas durante a semana aproveita a pausa do almoço para alargar a gravata e saborear a envolvência esfomeada que aguarda pela refeição. Hoje fez uma descoberta simpática quando viu reaberta uma das ementas riscadas, com nova gerência. O aspecto da sala pouco tinha mudado. Os lugares sobravam. Sentou-se no sítio do costume. Pediu sugestão ao novo empregado e tomou nota da ementa fixa da semana. Enquanto aguardava, veio à mesa a suposta gerente. Teve uma curta conversa com a D. Pepita, que se fixou em Portugal num ano de excelente colheita vinícola, favorecendo o palato às iguarias. Johnson conta-lhe as fascinantes garfadas que anteriormente enchiam aquelas mesas. Passou a visitar o local por simpatia e afeição ao sal que pulverizava o ar com a passagem de D. Pepita. Ela estava aflita em dívidas e a sobreviver das tapas que servia aos sequiosos que se enfileiravam à tarde no balcão. Um desses dias, deixou-se encantar pela única companhia, a das moscas que caíam nos pratos das mesas, mortinhas de fome. Abriu mentalmente uma nova ementa e começou a sonhar. Decidiu afastar as mesas e ampliar o sonho das conversas que assistia ao balcão, fechando o espaço como restaurante e tentando licenciá-lo para satisfazer um desejo corporal após a morte dos interessados. Queria proporcionar um velório mais espirituoso aos amigos vivos e partilhá-lo por mais umas horas em júbilo. O pedido seria descrito pelo próprio e entregue dentro de um envelope, já lacado, a D. Pepita, salvaguardado por um duplicado dado a familiares ou a quem delegou abri-lo após a sua morte. D. Pepita, assim que viu entrar Johnson, correu para ele e pediu que a ajudasse a elaborar o sonho, que descreveu com uma minúcia assombrosa. Johnson sentou-se abismado com o sonho que ela lhe contava, bebendo grandes goladas de whisky. Tentou acalmá-la: - Pepita, estamos a chegar ao carnaval, pode ser uma brincadeira engraçada, mas quem é que vai fazer de morto?
- Embebedo o Zé Botelho, que falou aí ao balcão da festa que gostava de dar depois de morto, e ajudo-o a deitar-se no caixão. Com o patrocínio da funerária do fundo da rua, o caixão é fácil de arranjar … tu tratas de divulgar a festa. Não te esqueças, quero fotógrafos.
-Pepita, tu achas que consegues pôr o Zé Botelho quieto no caixão?
-Embebo um tufo de algodão na bebida que ele gosta para lhe manter a boca fechada… ponho um DJ a tocar música e um cartaz lá fora, AQUI NIGUÉM MORRE! Que tal?
-Toma lá este dinheiro para compores o stock das bebidas, mas depois do carnaval vais ter que mudar o cartaz lá de fora… TRESPASSA-SE.
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Atento