sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

Puxado a ouros

.

Um grupo de arquitectos, cansados de tanta diplomacia orgânica, decidiu acordar o agastado baralho de cartas disposto pelos velhos magnates em leque. Os reis esfumavam-se e davam passagem às damas secas que depenavam em obrigações a assisti-las. As jogadas repetiam-se com renúncias, baralhando a bisca da má sorte, levando-os a suportar os argumentos do Joker, que surgia para parar a cartada. Viciado o majestoso jogo, mantinham-se inalteráveis os ases, dando grandes cortes à palha que se amontoava no tampo da mesa. Foram necessários vários anos para que o grupo de arquitectos conseguisse reunir um número considerável de vazas para assentar as borras dos estudos dum projecto em papel. Tratava-se de um plano bastante arrojado, numa vasta área onde só o sol nascente se vai erguendo.

Todos eles defensores dos recursos naturais, tiveram que contrariar os seus princípios éticos e iniciar o maior desafio arquitectónico no meio rural. O intuito da obra consistia em cativar o maior número de jovens desempregados interessados em trabalhar. Não foi preciso distribuir as cartas do jogo para se abrir a discussão. Por mais crentes que fossem os jovens, os incentivos existentes foram desenvolvidos para se viver nas grandes cidades, onde a escassez de emprego os deixa a deambular já dentro do próprio ensino. Foi a pensar na descentralização dos estilos de vida futura, que este grupo de arquitectos decidiu arriscar, no papel, o maior edifício alguma vez construído para servir como pólo atractivo e dinamizador de todas as regiões que já reúnem condições de alguma comodidade, mas carecem de população. O edifício de piso único seria disposto por módulos com uma configuração bruta, semelhante à delimitação das regiões que apostam no desenvolvimento rural, seja ele institucional ou particular. Dentro de cada região seriam eleitos, por votação, os locais a promover para que os espaços em exposição pudessem ser renovados consoante a sua difusão. Não haveria necessidade de recorrer à escolha da localização do edifício, pois seria construído mediante a oferta gerada pelas regiões.

-É pá, isto parece os jogos sem fronteiras nacionais.

-Cala-te e joga, foi puxado a ouros…

.

Atento

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Ou não

.

Sacudam a água da chuva dos vossos capotes, pendurem a vaidade que não vos aquece, e pensem que os desgraçados podem ser vossos parentes. Aproveitem para temperar o indefinido carácter introspectivo e libertem a vossa real ciência. Desliguem as campainhas, porque dizem que anda por ai uma dietista a bater às portas para fazer um caldo ao canário. J

Voltarei sempre que achar oportuno, ou não.

.

Atento

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Tempo aproximado de descongelação (?)

.

Espero que este período vos sirva para poderem dar asas à imaginação e ampliar os gestos que se cometem o ano inteiro. A sociedade compra o que pode, sempre bem embalado, não vão os presentes perderem o aspecto surpreendente e a termo certo ilustrarem o lixo. Vemos cada vez mais lixo a deixar de o ser, sem que saibamos ao certo dar o devido valor à abundância de caixas e caixotes, de coisas que se embrulham e nos fazem cair. Inúteis, partem elas para a praga das tumbas de lixo. Todos os agentes dizem que os produtos vêm já assim da fábrica das coisas e os produtos querem-se sempre bem embalados, mas há clientes que começam a ter vergonha de acartar a imensidão do super embalamento e pedem a simplificação para garantir apenas o produto. Não chega imputar erros, pois as boas maneiras ainda não pararam de descongelar.

.

Atento

.

Reunião do G7 será no Árctico Fev.2010

Caricatura da Europa em 1914

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Papagaio

Warren Langley

.

O danado do vento dormia sono leve, de pés virados ao mar e com a cabeça na almofada da ravina. Soava o seu resfolgar prolongado, fuuuu... sempre em vigia, avisava com fortes assobios as espetadas orelhas. Ali bufava e limpava as cavidades das duras e grandes orelhas. O domínio pertencia só ao vento, a subir e a descer, até que a rocha o prendeu. Susteve a respiração para ganhar mais força, mas dali nunca mais voou.

.

Atento

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Luz

Allison Grant

.

Foi achado o caldo mágico para acalmar a frieza da noite. Toda ela, repleta de estrelas, brilha, composta em ramalhetes na mesa dos céus. Dispostas ao longo da avenida dos eruditos, a noite é enfeitada com os odores adoçantes a lareira, dando esperança regrada aos escaldados. Era uma luz forte, chegada ao peito, mas deixou de iluminar alguém.

.

Atento

Aí vão elas

Rune Guneriussen

Desígnio de caraças

Allison Grant

.

Com o decorrer do tempo, a sociedade vai-se acomodando à nudez do regime silvestre, composto por vários grupos de guias, sabedores do rigor a implementar. As coordenadas são para ser respeitadas e, para que ninguém se perca em observações mediáticas, mantém os caminhos isolados e muito bem sinalizados, mas mesmo assim, param a viagem sucessivamente para contar as cabeças estafadas. Estão munidos de alta tecnologia para enfrentar as adversidades do terreno e escapar, nas fileiras, aos paralelos que se soltam das escarpas. A probabilidade de ocorrerem acidentes já tinha sido estudada pelas entidades do CEIM (Centro de Engenharia e Integração de Meteoros). Foram minimizados os riscos de circulação nas carreiras profissionais dos guias, mas com o número elevado de participantes, prevê-se uma estranha capacidade em dirigir outro país com semelhantes características geotérmicas. Degolados os montes pelos incêndios, as conversas das chuvas lavam o sangue dos arranhões que escorre em sumo e turva as águas dos rios. As cenas repetem-se em busca da decência, verificando as regras desta caminhada sem pudor. O banho prossegue com um desígnio de caraças.

.

Atento

Ah...

.
A essência está no fundo.

Ben Speck

Alex Freund

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Ivan Puig


terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Classificados em acção


Bruno Quinquet

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

E tu, o que vais fazer?

Sergio Belinchón

.

O dia já ia quase a meio e o manda-chuva ainda nadava na piscina aquecida enquanto todo o grupo de trabalho aguardava, em pé, que ele parasse de bracejar e desse início à ordem de trabalhos para a próxima época. Cansados de esperar, abriam os fatos, deslaçavam gravatas e as senhoras, de toalhetes na mão, enxugavam o rosto de tanto vapor. Subitamente todos se calam ao som dum aviso vindo de dentro da piscina. De água pelo pescoço, dá as primeiras coordenadas ao pessoal. – Como de costume, ninguém trouxe calções… Bem, para a próxima não marco a reunião aqui… QUEIRAM FAZER O FAVOR DE ME OUVIR. Isto é rápido. Hoje vou dar-vos algumas pistas para que as vossas funções façam mais sentido.

Em perfeita exibição, mergulha, nadando debaixo de água para a zona mais baixa para facilitar melhor a respiração. Era vê-lo ali parado com a água pela cintura de apito de plástico na mão. -Vou começar. Tu, vais ter o derradeiro trabalho de prolongar, o mais que puderes, as tuas belas histórias educativas sem agravares muito a despesa. Tu, aí atrás, não estejas a olhar para mim com esse arzinho maroto e bota guys sempre que a conversa esmoreça. Agora, tu sabes bem a importância que nos deram na cooperação do Anel Atlântica no Golfo de Além. Vê se me crias uma estratégia para apanhar umas embarcações de piratas na nossa zona económica e, assim, mostrarmos ao mundo a qualidade dos nossos homens.

-Pois é, mas não se trata de três bacias com roupa para lavar. A ZEE é a linha que o senhor imagina, mas na verdade a área marítima são muitas milhas para patrulhar.

-Calma, os submarinos vêm aí. Agora tu, chega-te mais à beira da piscina, não estou a ver-te bem. Isso. Tu vais erradicar as barracas de dois grandes centros, mas verifiquem antes se tem gente dentro, já chega de disparates. Finalmente, tu… espero que possas suprimir alguns trâmites desnecessários para podermos articular melhor as medidas de fundo e não sobrecarregar o trabalho dos árbitros. Ah, caso apareça por lá alguém a reclamar algum direito, eles que esqueçam isso, pois as mudanças estão a chegar. Não te esqueças de eliminar os nomes deste pessoal todo dos ficheiros electrónicos, quero que haja a maior isenção. Parece que me está aqui a faltar alguém, mas se o virem digam que é preciso aprofundar as autonomias, mas que ele não se esqueça que uma ilha, é sempre uma ilha.

-E eu?

-Ah, faltavas tu. Vais tocar umas pianadas para mostrares aos artistas o que é música. Quem tiver duvidas, peça as pastas dos antecessores pois está lá tudo.

Todos, quase em coro, perguntam: -E tu, o que vais fazer?

-Vou continuar a inventar formas de arranjar polémicas para vocês continuarem a ter o vosso salário em dia, meus pastosos mal agradecidos. FORA DAQUI! Ainda não terminei o meu treino matinal.

.

Atento

Estado MURADO dos idosos

Juliane Eirich

.

Qualquer estado envelhece quando pretende trasladar publicamente manifestos de dor. É um dever instituído passar a mensagem piedosa aos óbitos ignotos. São declarações dirigidas às famílias das vítimas que ocorrem espontaneamente, tendo a característica funesta do trago amargo patriarcal, cujo procedimento de investigação de muitos destes casos, deixa de ter qualquer existência pública após as tragédias. É evidente que reside uma leve noção deprimente de inteligência ao estado, identificando as semelhanças de parentesco. Também no âmbito da espontaneidade, é visível a difícil tarefa de manter a continuidade do padrão utilizado de comunicação distante dos representantes que chegaram, há muito, a este estado de coisas. Por natureza, os humanos sabem criar expectativas, mas é um profundo lamento praticado há séculos chorar os mortos ignotos. São os vivos quem preenchem as regras de agenda neste período de incubação misantrópico social. A sensibilidade corre difusa em especial no crescente de idosos que já não se pode defender. E eles amontoam-se acamados, dependentes destes novos seres dissimulados à devoção familiar e, sem qualquer compadrio, estabelecem maior compreensão ao monetário e dedicando-se à adivinhação, estafando e subvertendo os verdadeiros valores da vida.

.

Atento