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O criado
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Forçosamente, só poderia ter nascido há séculos a Princesa no mais resplendoroso castelo que muralha a civilidade actual. Na boca do povo corre a lenda de que as muralhas do castelo onde viveu ainda guardam os gritos de dor do seu parto. Os registos das aparições em público da Princesa agora estão amoedados nas mãos dos coleccionadores, que as fazem circular a bom preço após a descoberta de um diário escrito por um criado que terá vivido dentro das muralhas na época. Hoje, a actual história de civilidade é tão deprimente e apagada que o achado descarna com facilidade a descompensação humana.
Foi a troco de uma refeição que o diário do criado foi entregue a um jornal pelas mãos de um indigente, questionado até à sobremesa por um jornalista. Especialistas reuniram-se para avaliar e descodificar o diário escrito, mas os historiadores desvalorizaram o conteúdo. Fugas de informação preencheram a curiosidade numismata, originando a venda de revistas, jornais com a relevância do achado. Para a época em que foi escrito, com um alto nível de analfabetismo, o tal criado teria que ter dotes muito próprios para ter descrito, de tão perto, algumas das vivências do reino.
Entrei neste castelo pela primeira vez quando auxiliei o rei de um tombo a cavalo. Estava luar quando, em galopada desenfreada, passou por mim. Parei para o ver passar na estreita ponte de pedra onde as ferraduras mais apressadas normalmente escorregaram. Vi um corpo a ser cuspido do cavalo para fora da ponte. Corri para acudir e, da ponte, meia dúzia de metros a baixo, lá ia uma grande sombra a boiar, dançando lentamente, como quem adormece o rio. Saltei para dentro de água e, agarrado à grande sombra hipnotizada, fui empurrando-a para a margem. Fora de água, aproximei-me da sua cabeça para sentir a respiração. Pelo cheiro, estaria vivo pois o rio não era de vinho mas de água pura. Bati-lhe repetidas vezes na cara para que acordasse e, de um só arroto, despejou o bucho de uma mesa repleta de comida. Debruçado com a cabeça na margem do rio, o homem bochechou diversas vezes enquanto eu o agarrava pelo casaco para que a sombra estabilizasse e não escorregasse para dentro do rio. Dirigi-lhe a palavra: -Teve sorte de o rio estar cheio, senhor, as pedras afiadas do fundo teriam-no cortado às postas.
-É verdade, mas quem me empurrou, foi você?
Ri-me e acrescentei: -Eu é que o tirei do rio, senão com a sede com que vinha, o senhor teria secado o rio.
-Era bem capaz… pois fique sabendo que sou o Rei.
-Desculpe senhor, eu vou buscar-lhe o cavalo.
Acompanhei o Rei ao castelo e, desde esse dia, fiquei ao seu mando. Assisti às desavenças de um Rei que enegreceu com a desgraça da morte da esposa quando nasceu a primeira e única filha. Amaldiçoada hemorragia leva-lhe a graciosa e doce Rainha que faleceu no parto. Num silêncio de morte o Rei, enlouquecido, desatou a gritar e o povo registou o momento como as dores de um parto.
No dia do baptizado, o Rei sentia-se desolado, sem varão, mas carregava um rio de vinho dentro de si, tendo sido a filha baptizada com o mesmo nome de sua mãe.
Hoje a ama chamou-me para eu ver a Princesa a dar os primeiros passinhos, mas curiosamente dirige-se para o mesmo lado desde que engatinha. Descobri que admira o centro do salão, onde ela se pode observar através de um grande espelho. Entre caçadas com o Rei, a criança ficava baloiçando pelo jardim, equilibrando-se como uma borboleta nas asas da ama. Quando regressávamos, guardava as armas, alimentava os cães e, quando atravessava o salão, lá estava a criança sossegada, observando-se ao espelho até adormecer.
A Princesa cresceu, mas fala pouco. É muito impressionável, não é capaz de assistir ao depenar de uma perdiz, mas já come sozinha. Corre atrás do cão e tem força suficiente para o fazer ganir e quando não o apanha, pede-me que lhe traga o cão às pintinhas para brincar. Eu digo-lhe que o cão fugiu, foi passear, mas a ama faz-lhe sempre as vontades. O Rei quer é diversão. Vinho, comida e mulheres, eu também, mas por outra ordem. Fazemos caçadas pelos montes, ele para se manter forte, mas de fraca pontaria, obrigando-me a disparar primeiro para salvar a caçada. A visão do rei piorou de tal forma que hoje confundiu um cão, a menos de 50 metros, e lá tive eu de enterrar o “javali” às pintinhas. Deixei de ser eu a limpar as armas e uma noite o rei adormeceu, cansado, à lareira, com a espingarda carregada ao seu lado. A Princesa parece querer seguir os passos de seu pai e, nessa noite, estava eu enterrado no colchão de palha da ama e ouvimos um disparo dentro do Castelo. Saltamos da cama e enquanto eu tentava meter a “roupa” nas calças, a ama vestiu-se pelos corredores a chamar pela PRINCESA… Quando cheguei à sala estava o rei assombrado na cadeira com a pontaria da filha que chorava agarrada à ama. A Princesa tinha acabado de matar a menina que a perseguia no espelho. Felizmente ninguém se magoou, mas eu fui trabalhar para outro lado para não ser acusado de tentar tirar o protagonismo ao rei.
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Atento