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Viagem ao purgatório
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Actualmente, quem não fizer uma ligação directa à realidade, estará a representar as suas experiências mal e a deturpar o conhecimento científico. Por esse motivo, o distinto Head Mundo, um dos mais conceituados avaliadores e reguladores de fenómenos, decidiu alargar o seu conhecimento submetendo-se a mais uma experiência transcendental.
Sem muito que fazer, dormitava no velho sofá de cetim quando um velho amigo o fez estremecer com a energia libertada na porta. Levantou-se repentinamente azamboado e com vontade de elucidar, quem fosse, que a porta tem campainha. Quando o viu a entrar, é que se apercebeu que a luz natural era a única que por ali entrava há anos. Os dias têm sido bem taxados com nuvens que arrefecem o talhão, mas apenas a natural suspensão de luz nocturna o faria folgar. Sentiu-se um privilegiado ao poder receber aquele amigo e desfrutar dos seus relatos em primeira mão. Sentado à secretária de pedra, apontava, com minas de carvão, descrições fabulosas do sabático Head Mundo.
-Estás com um aspecto diferente de barba.
-Falta de vontade de a cortar. Então, como tens passado com essas jornadas classicistas?
-Lá estás tu a julgar-me um barroco, desta vez não imaginas onde estive.
-Ainda não me disseste, eu não sou adivinho.
-Por falar em adivinho, não tens nada que se beba?
-Tenho água na jarra à luz natural, serve?
-Pode ser. Tu, que também és um homem que bebes o futuro, estarás a poupar na luz ou a ambientar um novo espírito ao presente?
-Head, sabes bem que as minhas ambições não têm a pretensão monetária e calórica em que vives, mas ao que parece, a tua memória está afectada pelos princípios artificiais da real contemporaneidade.
-Não me entorpeças com a tua filosofia e conta-me desse lugar onde estiveste, certamente bem mais interessante.
-Ó pá, estive no purgatório.
- Head, como conseguiste com uma média embusteira tão baixa?
-Foi fácil. Através de vários anúncios de um velho alfarrabista, consegui alcançar a entrada dividida sempre em dois pontos distintos. O monte do mal erguia-se carregado de suposições contabilísticas sólidas, sobrepondo-se a qualquer tipo de razão do conhecimento. O monte do bem, apesar de ser muito mais pequeno, simplesmente dá a capacidade de flutuação a ambos e, assim, poderes entrar num espaço diminuto onde só passa um corpo de cada vez.
-Tens que me explicar como conseguiste manter-te à superfície e identificar o purgatório, foste de barco?
-Não. Apesar da divulgação da livre passagem, só te apercebes que lá chegaste depois de viajares.
-Pagaste um pipo de massa?
-Não, ninguém está à tua espera para cobrar a entrada. A passagem está bem iluminada, mas passa discreta às trevas da vida.
- Lá dentro como foi, torturaram-te?
-Calma, a passagem não é tão curta como te parece. Depois da entrada iluminada, percorri muito tempo no escuro, entre duas paredes de pedra, onde já não podes voltar para trás devido ao fluxo de excursionistas que vêm atrás de ti.
-Ó Head, poderias ter escolhido um horário mais simpático, com menos afluência.
-Infelizmente, são mais os que ficam por aquela espécie de túnel…
-Mas se desaparecem pelo caminho, têm que ter galerias para se hospedarem?
-Não sei, não se vê absolutamente nada, apenas pressentes que estás a ser acompanhado por clamores líquidos e consoante percorres aquele túnel, as paredes de pedra os vão absorvendo.
-Mas chegaste ao fim desse túnel?
-Sim, um pouco mais leve, mas cheguei. Não sei se terei a sorte de lá voltar, mas acredita que fui muito bem recebido, num lago com água a fervilhar vinda de uma cascata sem rosto. Vi um tipo, talvez mercador, com uma travessa de laranjas e encaminhou-me a uma deslumbrante paisagem.
-Olha lá, tu foste ao Algarve, ou estás a mangar comigo? Não te estou a conhecer!
-E digo-te mais, tinha muitas cascas de laranja pelo chão.
-Ui, ui, ui, temos o caldo entornado. Quer dizer, passaste por um túnel com grandes blocos de pedra do bem e do mal, ofereceram-te laranjas, só te falta ter comido pétalas de rosa e depois ter fugido do homem da foice. Deram-te salvia divinorum por lá?
-Não digas disparates…
-E eu a imaginar-te num harém, com deusas a prepararam-te para te pelar. Mas afinal tomaste partido desse confrangedor purgatório ou andas metido numa demonocracia, Head Mundo?
-O que é isso de demonocracia?
-É a influência dos demónios.
-Deixa-me terminar de descrever este lugar e pára de dizer disparates…
-Eu não te interrompo mais, mas tu sabes que podes vir a ser castigado por divulgar o purgatório.
-O purgatório está mudar consecutivamente e tu sabes que não renasço nem receio a verdade em viver na omissão eterna que desequilibra o terreno mais fértil.
-Sim, é uma opção tua.
-Não, não é. É uma condição que me foi imposta por falta de resposta e tu sabes que tenho provas, mas que morram com quem as guardou.
-Vais usar as provas alguma vez?
-Essas revelações não me dizem respeito, eu actuei nas minhas competências, que paguem eles as penitências porque crêem no poder de comprar tudo.
-Head, gosto da tua frontalidade, e na paisagem, falaste com alguém?
-As conversas sobre a obscuridade são rotineiras, mas já te conto o que consegui reter na minha memória. Depois de passar a escuridão do túnel, o espaço não é ocupado em lotes como aqui, lá andamos embebidos numa névoa raiada de sol iluminando desfiladeiros de vidas que repousam em ramadas de árvores, resguardados de histórias torcidas naturalmente pela arte do tempo. As plantas são muito mais expressivas porque consegues vê-las crescer. Ao longe saboreei o verdejante da salvia, a tempo de conhecer a sua linguagem.
-E a envolvente névoa, tinha algo termal, romanesco, ou eram jacuzzis?
-Não quero que confirmes, mas fiquei fascinado pela envolvência sumptuosa que acolhe aquela gente que conseguiu passar o túnel, mas ainda está em processo descontínuo dos delitos. Outros, fervilham resguardados dentro de grandes superfícies vidradas, onde tratam da jurisdição dos agregados pendentes.
-Entraste nesse edifício?
-Não, serpenteei-o sem problemas, devido ao elevado número que aguarda em estado de decomposição criminal.
-Meu caro Head, eu estou com um aspecto diferente, de barba por desfazer, mas tu não precisas dizer mais nada, eu já sei onde estiveste.
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Atento