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Festival de fantoches
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Para revigorar e aquecer o corpo, o Senhor do quinto andar todas as manhãs sobe pelas escadas até às águas furtadas no vigésimo andar. Fá-lo de olhos fechados e saúda quem passa, mecanicamente, sem desviar o olhar do chão. Não sei que interesse terá para ele aquele lugar isolado, sem gente, e de telhas barbadas de ervas que os pássaros semearam. Assim que se avizinham os primeiros dias temperados, retira a roupa e estira-se numa esteira de junco ao sol, expondo as peles enrugadas de um velho coirão. Lá em cima, ocupa o tempo com jornais, livros, mas o ruído da cidade não o incomoda. Graças à sadia coscuvilhe, vizinha dos bons costumes, a sua intimidade não foi poupada por uma amásia desbocada. Há dias estive com o senhor do quinto andar nas águas furtadas e conto-vos, perdi-me das minhas tarefas diárias e deixei-me levar pelas suas histórias. Nem o avião que sobrevoou as nossas cabeças e largou folhetos de publicidade foi esquecido. Disse-me logo, para pára-quedista não servia. Levaria muito tempo a abrir o pára-quedas, mas apanhou a tempo um folheto e voou directo até ao festival de fantoches europeu. As suas mãos habilidosas estavam preparadas para o desafio, mas faltava-lhe o boneco para esse espectáculo. Não se cansou de procurar um coleccionador de fantoches até que encontrou um e descreveu-me alguns fantoches que viu sem sair do mesmo lugar.
Todos os rasgos da fachada da casa estavam tapados com cortinas pretas. Afastou a cortina da entrada e entrou. Era impossível dizer que não estava ali ninguém para o receber pois a sala estava repleta de fantoches de vários tamanhos, por todo lado, numa variedade de expressões inimagináveis e tecnicamente posicionados em olhares para a entrada. Era intimidador o local, provocando uma inacção total para os articular. Uma voz convidou-o a subir uma estreita escada, em caracol, de madeira que acusava algum cansaço em suportar o seu peso. Foi subindo aquela escada sem corrimão, forrada de fantoches a desequilibrarem a subida, e perguntou ao velho coleccionador que o aguardava no topo da escada: -Você não está sozinho com esta malta toda…são milhares com certeza?
-Nunca os contei, mas conheço as histórias de todos, e estes que tenho aqui nas vitrinas são os mais especiais.
-Posso pegar neste?
- Todos eles são para as mãos, mas você também deve ser raro, porque grande parte das pessoas que por aqui passam, agitam-nos e trocam facilmente a sua história.
-Este trouxe-o de onde?
-Esse é muito antigo, comprei-o num antiquário na minha primeira viagem a Paris.
-O senhor deve ter um gosto especial por estes dois que estão em destaque?
-Eu, para além de coleccionador, também gosto de criar as minhas personagens e estes fi-los propositadamente para alimentar o que está em falta.
-Alguns parecem incompletos, faltam-lhes membros, devem fazer parte de histórias de guerra?
-Também, mas por exemplo esta linda boneca tem tanto de perfeito que, quando lhe tocamos, desmancha-se para concluir um acto.
-Engraçado, este ainda tem o preço em liras e tem a braguilha aberta, isto tem truque?
-Para manusear esse burguês é necessário ter uns dedos longos para chegar-lhe ao mesmo tempo à cabeça, mas olhe que a sua história é mais fogo-de-vista.
-Em euros, qual é o preço?
-Esse até o poderia oferecer para acabar com os boatos que tem criado à sua volta, mas as minhas netas não me perdoariam se me desfizesse dele.
-O senhor desculpe, mas as suas netas já devem ser grandinhas?
-Sim, uma é médica e a outra tem tempo de sobra para endoidecer o avô…Mas diga-me, o que foi que o fez vir cá?
-Procuro um boneco especial para levar ao festival europeu de fantoches, mas gostava de algo sem muitos fios, prático de usar.
-Os que eu tenho para venda estão lá em baixo, mas posso tentar fazer, caso não goste de nenhum. Necessito saber qual é o tema que pretende abordar.
-Pode parecer absurdo, mas há dias apanhei um folheto nas minhas águas furtadas e pensei adquirir um fantoche, mas tinha que ser um fantoche renovador.
-O que dizia o folheto?
-Era qualquer coisa assim: Cada país terá a oportunidade de representar peças teatrais cujo argumento vai sendo moldado, sucessivamente, consoante um grupo anónimo de patrocinadores que suporta o festival. Os reconhecidos júris terão ao seu dispor um número ilimitado de ressalvas jurídicas para assegurar as ajudas remuneratórias que foram distribuídas, ao longo do tempo, para o evento e, assim, cada país participante possa construir e desenvolver os bonecos mais fantásticos. Dizem que Portugal é um país com larga experiência em aproveitar recursos financeiros e está a ser penalizado por ter usado mãos largas nas estruturas que circundam os frágeis cenários da fantochada.
-E você, não aproveitou essa leva financeira?
-Deus me livre! Mesmo com o exacerbado poder de decisão, têm um gigantesco novelo de guita para desenrolar algures. Acha possível o meu estar apto, a tempo e horas, para encenar e habilitar-me a estar ao lado dos restantes jactantes artistas?
-Para começar vai ter que treinar o manuseamento do fantoche e articulá-lo em conformidade com a exigência dos júris, mas vai precisar de muitas mãos para o activar. Vamos lá abaixo que eu penso ter o que procura.
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Atento