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Quando quero dormir, não há nada que me acorde. Sejam eles técnicos, peritos ou pedagogos, todos me dão sono com conversas torneadas até ao fundo das suas convicções. Mas naquela madrugada a janela ficou aberta, entretida com o vento que folheava uma conversa pegada no maço de folhas brancas no quarto do lado. Levantei-me para as sossegar, mas elas queriam conversa. Fechei a janela e zás, depenei do maço a primeira desarvorada. Solta, amparei-a com uma mão pelas costas para a tornar a deitar sobre o estirador e ela baloiçou a resmungar:
-Solta-me, sabes bem como eu gosto de estar só contigo, porque trazes mais duas?
-Desculpa, vieram coladas, mas descansa que tratarei delas mais tarde.
Peguei no lápis por instinto e ela, apavorada, alerta-me:
-Não o afies, ele está óptimo assim.
Sorri, desviei o olhar da mastronça folha e esperei que descontraísse da energia acumulada pelo vento. Afastei o que pude à sua volta, afaguei levemente a folha de papel cavalinho e ela sussurrou: -O que vais fazer no meu corpo?
-Contar-te leves segredos para que não te esqueças deste dia.
-Eu sinto que hoje é um dia especial para ti e até arriscava que vais contemplar-me com a imagem de outra mulher. Olha que eu sou uma folha de papel cavalinho!
-Se não te calares, podes acreditar que corto o teu longo vestido e ficarás quadrada para o resto da vida.
-Pronto, estás a vulgarizar o meu papel de mulher…
Enquanto ela falava, debrucei-me no estirador, peguei nas pontas de baixo e comecei a dobrá-la, sem vincar.
-Pára, estás a magoar-me, não vês que sou de papel. Pega no lápis, desenha o que sentes por mim e preenche-me com aguarelas.
-Controla a ânsia que ainda só estou a esboçar-te para assim poder fecundar-te com os tons da tua pele.
-Considera-me a única e a mais bela folha que já pintaste.
-Todas são belas e únicas, não há uma igual, basta um pouco de luz e prazer para as vestir.
-E o que me dizes dos borrões?
-Eu não quero de tudo, mas também têm direito à vida. Não estremeças. É água do borrifador.
-Mas está fria.
-Quero sombrear as tuas axilas sem borrar o conjunto.
-Gostas do resto?
-Estou a gostar, mas vou ter que apagar, tem rugas a mais.
-Tu não me estragues a imagem. Pára essa borracha. Secas-me a pele. Queres esfolar-me e arranjar motivo para pegares numa folha nova de papel cavalinho?
-Lá vem a ciumeira… Já estás pronta.
-Vamos sair?
-Vou pregar-te na porta com pioneses.
-PIONESES NÃO, pica.
Quatro pedaços de fita-cola e calou-se para sempre.
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Atento